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27 de dez de 2010

Um excerto de Caio Fernando Abreu


"Desejo que o seu melhor sorriso,
esse aí tão lindo,
aconteça incontáveis vezes
pelo caminho.
Que cada um deles
crie mais espaço em você.
Que cada um deles
cure um pouco mais
o que ainda lhe dói.
Que cada um deles
cante uma luz que,
mesmo que ninguém perceba,
amacie um bocadinho
as durezas do mundo."

Caio Fernando Abreu

30 de set de 2010

Caio Fernando Abreu (excerto)

(...) Qualquer pessoa viciada em cinema (como Cecilia e eu) sabe desse pequeno segredo, tão profundo quanto inconfessável: vai-se ao cinema para viver o que a vida não dá. (...) A princípio, não compreendi a relação. Agora, suponho que sim: tanto o filme quanto o poema ou a música falam dessa nossa louca necessidade de ilusão. Porque a imaginação do homem foi feita, acho, para imensamente mais do que aquilo que o cotidiano oferece. (...)

Caio Fernando Abreu
sobre: A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen

26 de set de 2010

After A While ...

After a while you learn the subtle difference
Between holding a hand and sharing a life
And you learn that love doesn't mean possession
And company doesn't mean security
And loneliness is universal.
And you learn that kisses aren't contracts
And presents aren't promises
And you begin to accept your defeats
With your head up and your eyes open
With the grace of a woman, not the grief of a child.
And you learn to build your hope on today
As the future has a way of falling apart in mid-flight
Because tomorrow's ground can be too uncertain for plans
Yet, each step taken in a new direction creates a path
Toward the promise of a brighter dawn.
And you learn that even sunshine burns
If you get too much
So you plant your own garden and nourish your own soul
Instead of waiting for someone to bring you flowers.
And you learn that love,
True love,
Always has joys and sorrows
Seems ever present, yet is never quite the same
Becoming more than love and less than love
So difficult to define.
And you learn that through it all
You really can endure
That you really are strong
That you do have value
And you learn and grow
With every goodbye
You learn.

Veronica Shoffstall


Depois de algum tempo

Depois de algum tempo você aprende a sutil diferença
entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E você aprende que amar não significa se apoiar
e que companhia nem sempre significa segurança.
E você aprende que beijos não são contratos
e presentes não são promessas.
E você começa a aceitar suas derrotas
com cabeça erguida e olhos adiante,
com a leveza de uma mulher, não a tristeza de uma criança.
E você aprende a construir as suas estradas hoje
porque o terreno do amanhã é incerto demais para planos
e futuros têm o hábito de cair em meio ao vôo.

Depois de um tempo você aprende que mesmo a luz do sol queima
se você tiver muito dela.

Aí você planta seu próprio jardim e enfeita sua própria alma
ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.

E você aprende que realmente pode aguentar
que você realmente é forte
e que você realmente tem valor.
E você aprende e você aprende...
com cada adeus você aprende.

Veronica Shoffstall
Tradução de Luiz Felipe Coelho

1 de set de 2010

Caio Fernando Abreu (excerto)


"Acordei sem a menor dificuldade, espiei a rua em silêncio,
muito limpa, as azaléias vermelhas e brancas todas floridas.
Parecia que alguém tinha recém pintado o céu, de tão azul.
Respirei fundo.
O ar puro da cidade lavava meus pulmões por dentro.
Setembro estava chegando enfim..."

(Caio Fernando Abreu)

23 de ago de 2010

Caio Fernando Abreu (excerto)


"Paciência para cruzar os dias sem se
deixar esmagar por eles,mesmo que nada
aconteça de mau, fé para estar seguro,
o tempo todo, que chegará setembro."

(Caio Fernando Abreu)

31 de jul de 2010

Caio Fernando Abreu (excerto)


"Bom, feliz talvez ainda não. Mas tenho assim... aquela coisa... como era mesmo o nome?
Aquela coisa antiga, que fazia a gente esperar que tudo desse certo, sabe qual?
— Esperança? Não me diga que você está com esperança!
— Estou, estou."

(Caio Fernando Abreu)

27 de jul de 2010

Caio Fernando Abreu (excerto)

(Paint by Willem Haenraets)


"Venha quando quiser, ligue, chame, escreva -
tem espaço na casa e no coração, só não se perca de mim"


Caio Fernando Abreu

29 de jun de 2010

Viagem...


"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre."

José Saramago

16 de jun de 2010

....Porque já não temos mais idade...

"...porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência..."

Caio Fernando Abreu

4 de jun de 2010

O silêncio


É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar.

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.

A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.

Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.

Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.

O coração bate ao reconhecê-lo.

Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga - como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.

Até que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.

Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror - o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.

Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.

Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.

Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.

Clarice Lispector-
de "Onde estivestes de noite?"

28 de mai de 2010

***


"De onde vem essa iluminação que chamam de amor, e logo depois se contorce, se enleia, se turva toda e ofusca e apaga e acende feito um fio de contato defeituoso, sem nunca voltar àquela primeira iluminação?"


Caio Fernando Abreu
(Pequenas epifanias - Anotações insensatas)

10 de mai de 2010

POUR LA ROUTE


Quem sabe o Mozart si loin,
maybe a tarde entre os loureiros,
peut-être le coucher du soleil?
Chamam nomes na memória:
ah inverno que não acaba nunca
ah vontade de chorar sem dor.

Pelo tempo, pelas perdas,
pelas coisas, pelas gentes,
que passam e passeiam pelas notas do piano,
janelas de TGV, hotéis, insônias,
gares, mochilas, cabines.
Tudo outra vez, entre a bruma
desta última tarde em Bordeaux.


Bordeaux, março de 1993.

Caio Fernando Abreu
in Poemas, de O Essencial da década de 90.

9 de mai de 2010

E assim, aos poucos,...

"E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará.
A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário... por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo."
[excerto]

Caio Fernando Abreu

10 de abr de 2010

excerto de 'Limite Branco'


"Não sei como me defender dessa ternura que cresce escondido e, de repente, salta para fora de mim, querendo atingir todo mundo. Tão inesperada quanto a vontade de ferir, e com o mesmo ímpeto, a mesma densidade. Mas é mais frustrante. Sempre encontro a quem magoar com uma palavra ou um gesto. Mas nunca alguém que eu possa acariciar os cabelos, apertar a mão ou deitar a cabeça no ombro. Sempre o mesmo círculo vicioso: da solidão nasce a ternura, da ternura frustrada a agressão, e da agressividade torna a surgir a solidão. Todos os dias o ciclo se repete, às vezes com mais rapidez, outras mais lentamente. E eu me pergunto se viver não será essa espécie de ciranda de sentimentos que se sucedem e se sucedem e deixam sempre sede no fim."


Caio Fernando Abreu
excerto do livro 'Limite branco'

27 de fev de 2010

Para minha filha...


Na minha memória, tão congestionada
e no meu coração tão cheio de marcas e poços
você ocupa um dos lugares mais bonitos".

(Caio Fernando Abreu)

9 de fev de 2010



No meio do rio, eu via a pedra. A única naquela extensão azul de água, o pico negro erguido em inesperada fragilidade na solidão. Eu não tinha instrumentos para caminhar até ela, a pedra, tomá-la nos braços, por um instante debruçar minha ternura sobre seu isolamento num absurdo desejo que em sua insensibilidade de coisa ela se fizesse sensível e, assim suavizada, contivesse o desespero amparando-se em mim. Por que ela se perdia assim e assim se assumia e se cumpria em pedra, dona de si mesma, dispensando qualquer afeto, qualquer comunicação? Ela se bastava. Parecia já ter ido além da própria estrutura num lento inventariar do mundo ao redor, como se seu pico tivesse olhos e esses olhos projetassem indagações em torno, avançando nas descobertas, constatações se fazendo certezas. E como se seu isolamento fosse deliberado, como se já não acreditasse em mais nada e tivesse escolhido o amparo apenas das águas, a precária proteção do azul _ como se tivesse escolhido o vento, a erosão, os vermes, os musgos que a roíam devagar. Assim, da mesma forma como outros escolhem o apoio das pessoas ou a nudez do campo, ela escolhera o desafio da entrega. O despojamento de ser, insolucionada e completa em suas fronteiras: pedra porque pedra fora, era e seria num sempre que a sustentava, frágil e absoluta.

Caio Fernando de Abreu
excerto Diálogo. In: Caio 3D: o essencial da década de 1970.

18 de jan de 2010



Fico pensando se viver não será sinônimo de perguntar.
A gente se debate, busca, segura o fato com duas mãos sedentas e pensa: Achei! Achei!
Mas ele escorrega se espatifa em mil pedaços, como um vaso de barro coberto apenas por uma leve camada de louça.
A gente fica só, outra vez, e tem que começar do nada, correndo loucamente em busca dos outros vasos que vê. Cada um que surge parece o último, mas todos são de barro, quebram-se antes que possamos reformular as perguntas.
E começamos de novo, mais uma vez, dia após dia, ano após ano.
Um dia a gente chega à frente do espelho e descobre: Envelheci!
Então a busca termina. As perguntas colam no fundo da garganta, e vem a morte.
Que talvez seja a grande resposta.
A única.


Caio Fernando de Abreu
de 'Limite Branco'