Seja bem-vindo. Hoje é

28 de out de 2012

Caio Fernando Abreu



[...]
Hoje - tantos anos depois, neurônios arrebentados de álcool, drogas, insônia, rejeições, e a memória trapaceia, mesmo com a atenção voltada inteira para o centro seco daquilo que era denso
e foi-se dispersando aos
poucos, como se perdem o tempo e as emoções, poeira varrida, por mais esforços que faça, plena madrugada, sede familiar, telefone - mudo - não consegue lembrar de quase mais nada além disto tudo que tentou ser dito, ou aquilo que agora chama, com carinho e amargura, de:
Aquele Tempo.
Tempo, faz tanto tempo, repetem - esquece.
Continuam a dizer coisas que ele não entende. [...]

Caio Fernando Abreu
Excerto de
''Os Dragões Não Conhecem O Paraíso''

5 de out de 2012

 
 
E existem aquelas pessoas, que por mais distantes que estejam, ainda continuam perto. Aquelas, que passe o tempo que passar, serão sempre lembradas por algo que fizeram, falaram, mostraram, ou nos fizeram sentir. É isso. As pessoas são lembradas pelos sentimentos que despertaram em nós, e quanto maior o sentimento, maior se torna a pessoa."

Caio F.Abreu

20 de ago de 2012

Chove ? Nenhuma chuva cai...



(Imagem Jimmy_Lawlor)

Chove ? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia ?
Onde é que chove, que eu o ouço ?
Onde é que é triste, ó claro céu ?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu...
E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...
E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.
Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...
No claustro seqüestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés
No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...

Fernando Pessoa
In: Cancioneiro

18 de abr de 2012

Questão de Pontuação


Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.

João Cabral de Melo Neto
in: 'Museu de tudo e depois'
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p. 146

13 de fev de 2012

***


São incontroláveis os sonhos (...):
se bons deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições.

(Sugestões para atravessar agosto,
in: Pequenas Epifanias, CFAbreu)